Spleen (O pecado original)

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Spleen (O pecado original)
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Autor: Tiago Sousa

Spleen (O pecado original)

 

Sóbrio, encaminho os lábios à vodka de um prazer assoberbado. À superfície do líquido, sinto como que os prazeres da carne na tensão por se acharem um manifesto, trovoadas de rosto carcomendo a pele em cada lágrima, o sal do olho se unindo ao sal do álcool, esse tórrido oceano.

Invicto abraço de alfazema, prazeres de um almíscar perfumado; contento-me nas sombras com o violado sopro, que suspiro às efemérides. As estrelas, que sobejam o avanço já não o fazem, que se habitam e sós estagnadas nas fáscias pobres do universo, aponevroticamente fechadas aos sonhos do Homem, que ainda rezam por vocês.

O baço que enfraquece, são anseios de todos nós.

Estagnadas as olheiras do pressentimento, recuo às passadas iridescências, onde na infância tudo parecia-me de dimensões maiores. O ouro em isenções ungido por cada singular praça ou bacanal, as estirges do pecado se enlavando no lamaçal que me é a consciência. É como se algum crime eu tivesse cometido, e sendo sincero, cada abrir de pálpebras, a este ponto, me parece um crime.

Ruas silenciosas, oferecem-me o lancinante odor das suas estradas, o abdómen que me espeta com os carros que passam, a lubrificada emissão de um purulento grito, sussurrado séculos à frente. Talvez seja esse o meu pecado.

Mas não há coragem nenhuma em seguir em frente; nenhuma bravura em encher de ar os malditos pulmões; de seguir em frente. Não há coragem alguma. Para enfrentar o grande Monstro, para lançar ao chão a alta torre de menagem: não há bravura alguma em ser um tufão, um terramoto, ou uma força da Natureza.

Acho que esse é o meu pecado.

Luciferiano andar de nariz em proa, amaldiçoado caminhar de uma carrancuda farsa: mais do que isso, eu não sou. Esperma ressequido de um anfíbio, cada nuvem que passa é apenas um martírio, enlutando o rosto emérito. Dedico como se cada ruga, cada mínima fissura que cubra o meu rosto oc, aos tumores que aprisionam meu mediastino, enredando o meu cérebro, estrangulando-o até à morte

Só a esses, sinto que devo algo, a esses sentimentos mortos que me levam à hipóxia; um par de mãos sobre a superfície do pescoço: a voz mais devota do Amor. A eles que fazem os meus músculos parar, que fazem os lobos do meu cérebro reflectir sob coacção, e mais e mais até ao limite da discórdia: só a esses, sinto que devo algo. São esses os verdadeiros sentidos, a verdadeira intuição do que reside em nós. Um toque não do mundo, mas do universo visceral.

Como Artaud, não mais desejo que estilhaçar-me aos pedaços contra as paredes do próprio cosmos. Assim: parti-lo.

Morto, talvez as pupilas cegas me enxergando a passagem de um cometa, sendo esse cometa a vida fátua de toda a humanidade, e o seu rasto a pólvora de deuses e demónios, como pele de cobra deixada no caminho; com vida própria: a rastejar.

Talvez seja esse o meu pecado. O Meu Pecado Original. Confiar o seio ao sacrilégio, e doar-me o esófago, ao desejo de me esquecer. Talvez seja loucura, mas quem sabe… Nos becos obscuros da cidade tenebrosa que me é a consciência, os habitantes aptos a acenar com as cabeças à minha passagem, com o silêncio a assombrar-me e as estrelas em viagem, a lua congelada num posfácio ao meu horror. 

Este frio que aqui dentro sinto; esta bala que enfiada omito nas colmeias do meu peito; esta falha intermitente, este pesar da alma, este terror ao infinito. Este receio, esta fobia, esta mágoa. Nada que o pudesse descrever me traria algum conforto. Os pesadelos da infância repousam na digestão, e pelo menos vejo o futuro, como a instante promessa de um abrir e fechar de olhos, nas poeiras do universo.

 

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